Tempo de vida

Deitada em uma boia, na piscina, minha vista é a de cima: céu azul e folhas dos galhos mais altos da velha goiabeira. Passou uma libélula. Um cachorro latiu. Começo a sentir falta do calor que antes extraía de minhas têmporas gotinhas de suor. Ah, foi aquela nuvem danada em forma de dragão que sombreou o sol!

Posso saber disso, agora, graças à chegada de uma brisa que mudou a direção de minha nau cor-de-rosa. 

Se desfruto desse filme sem roteiro, à mercê do jogo de dados da natureza, é porque me dei de presente esse TEMPO DE VIDA. 

Tempo de limpar a mente do lixo, produzido para que nos possamos chamar de “civilização”. É preciso fugir do trânsito, da multidão, do barulho, da rotina, da publicidade, da hiperconexão. 

E se não for boiando de boas num dia azul, pode ser na sujeira do cotidiano, mesmo. Basta encontrar o ponto de fuga, sabe? Como aquele explorado por Da Vinci? 

Como aquela flor vermelha que descobri de dentro do ônibus, num trânsito colossal, às 18h, na Faria Lima. Graças à parada forçada pude notar a semelhança entre essa belezura da flora e um ouriço-do-mar. E de repente a flor-ouriço desprendia-se da árvore, agora era bicho nadando no oceano crepúsculo. 

Ou como a cena memorável do metrô repleto de jovens foliões a caminho dos blocos de carnaval…fantasias multicoloridas, glitter e meias arrastão. E, entre essa gente alegre, uma freirinha de verdade! Que parecia se divertir vendo tudo aquilo e que, num primeiro olhar, enganava os desavisados parecendo ser mais uma na turma carnavalesca. 

Ou como a delicada notícia que li pelo celular, do casamento de Érica e Jorge, catadores de recicláveis, na parada LGBT de Franco da Rocha. A transformação estética pela qual passaram, presente de algumas pessoas e empresas, fizeram da travesti Érica uma bela noiva em estilo hispânico. Jorge, por sua vez, tornou-se o hipster das ruas paulistanas, barba, cabelo e bigode repaginados. À margem, ou apesar da margem, são mais felizes que muitos casais de varandas gourmet. 

Faxina boa de fazer. Necessária para criar, inventar. Tempo de vida com sentido e consentido. Nada mais, nada mais importa. 

•foto: Timothy Meinberg

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