Quem é artista prefere andar descalço

Com as eleições presidenciais e do congresso em pauta fica difícil falarmos de outro assunto.

Gostaria de aproveitar este espaço para pensar em qual lugar a arte vai ocupar nesse cenário. Não se trata aqui de mais uma discussão sobre os prós e contras das “personalidades” que serão eleitas. Isto podemos ouvir todos os dias na esquina. Sim, digo “personalidades” porque não discutimos ideias e projetos. Pausa para reflexão enquanto preparo meu tom irônico. O brasileiro vota em quem lhe agrada ou no máximo se aproxima dos seus valores mesmo que o que se diz seja sempre da “boca pra fora” e nunca em ações concretas. Mais reflexão… Para mim, a política é como calçar sapatos, você precisa dos dois lados, só que às vezes simplesmente queremos andar descalços.

Qual é o lugar da arte (como produto) e de quem faz arte e dela vive em nosso país? Essa é certamente uma discussão que deveria ter sido colocada em evidência nos debates. Ela simplesmente não é colocada e nunca foi. Bom, é verdade que podemos falar das lutas pela livre expressão mas e sobre o mercado de arte propriamente? Há espaço para falar sobre isso em público? Fazer arte no Brasil se resume a um único desafio: encarar a sua precariedade e fazer sucesso. Necessariamente fazer sucesso. Ou perecer!

O que a discussão da Lei Rouanet trouxe para gente reflete algo do gênero: os cidadãos não-artistas acham que a elite artística vive de mamata. E que são eles quem sustentam os famosos artistas. Pois eu penso que é justamente o contrário. É a classe artística quem dá um alento para os cidadãos comuns. Somos nós que fazemos aquilo que eles não têm coragem de fazer. Somos a cultura que é exportada e que no estrangeiro se torna um cartão de visitas de qualquer cidadão que venha da terra brasilis. O Brasil nos deve centenas de anos. Esses anos, essa temporalidade está encarcerada no espaço. Na apropriação mesquinha das propriedades (cadê a reforma agrária?), no tempo gasto dos trabalhadores que em vez de focar na remuneração de bons professores foca numa falsa noção de “falta de escolas”. Afinal, se quisermos dar aula, não podemos fazer debaixo de uma árvore? E o tempo do artista que vive na miséria para trazer à luz uma criação capaz de trazer um alento para quem chega no fim de semana farto da sua vida sem sentido. Não merece ser remunerada?

Metade das nossas vidas depende de escolhas. A outra metade depende de como comunicamos nossas escolhas. Nesse segundo momento, é o mercado que vai selecionar quem vai te ouvir. É hora dos artistas brasileiros assumirem uma luta em que vejam a cultura como a sua principal tecnologia. Nós temos uma alta tecnologia. Ultra high-tech. Não podemos mais nos resignar à soluções do exterior “acabadas” que nos dizem como devemos nos comportar e qual o índice do PIB. Esqueçamos as commodities e sejamos nobres o suficiente para oferecer um “acalanto de paixão” para o mundo.

•foto: Brina Blum

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