Quais histórias você conta todo dia sobre você?

“As palavras que falamos se tornam a casa em que vivemos”.

Hafiz

Se eu te digo que eu sou contadora de histórias, qual a primeira coisa que vem na sua cabeça? Posso tentar adivinhar?

Eu diria que você (ou pelo menos a maioria das pessoas) me imaginaria sentada no chão de uma biblioteca, talvez com um laço na cabeça tipo apresentadora de programas pra crianças dos anos 80, com um monte delas em volta me olhando, enquanto eu gesticulo estranhamente e falo com uma voz parecida com a da apresentadora dos anos 80 citada acima.

É algo por aí?

Para a nossa cultura ocidental ouvir e contar histórias ou é coisa de criança ou tem a ver com as piadas e acontecimentos cotidianos que a gente conta no café. Às vezes, também é coisa de povos indígenas, gente da roça e coisa “de antigamente”. Definitivamente, contar e ouvir histórias (ou historinhas como dizem com frequência) não é coisa que gente séria e adulta faz nessa nossa sociedade.

E qual o problema com isso? Você pode estar pensando. O problema é que a gente deixa de perceber que as histórias que a gente toma como verdade, muitas vezes, inconscientemente, definem nossas opiniões e comportamentos. Tem uma história bem curtinha que você pode até já ter ouvido, muito boa pra dizer isso de outro jeito.

Um dia dois peixinhos bem jovenzinhos estavam no mar conversando. Foi quando um peixe mais velho passou por eles e disse:

– Bom dia, meninos. A água tá boa hoje, né?

Os dois peixinhos responderam com um sorriso meio amarelo e, depois que o velho se afastou, um olhou para o outro e perguntou:

– Mas, o que que é água?

Sim, nós somos os peixes e a água são as histórias. A gente vive tão mergulhados nelas que não somos mais capazes de enxerga-las. As narrativas são como as lentes através das quais vemos o mundo e, portanto, elas definem a nossa realidade. Quanto mais histórias eu encontro, mais perspectivas, mais possibilidades a minha vida pode ter. Você já deve ter visto o TED da Shimamanda Ngozi Adichie sobre o Perigo da história única (se não viu, fica muito a dica).

Mas, deixa eu dar um exemplo prático. Alguém te corta no trânsito, uma coisa horrorosa, você fica muito brava e logo pensa: “que fdp! Folgado! Não tá sozinho na rua não, ô!”

Pronto! Você já inventou uma narrativa sobre aquela pessoa. Mas, e se você se treinar para inventar uma outra história, uma mais positiva pra você e pra ela? Porque não tem jeito, nosso cérebro é programado para criar essas narrativas, organiza os acontecimentos e dá sentido para eles. Outra narrativa possível poderia ser: “nossa, essa pessoa deve estar atrasada pra uma entrevista ou acabou de saber que a mãe está no hospital’. Pronto! A realidade é outra e os seus sentimentos e ações em relação aquele acontecimento também. Você pode até pensar: “ah, mas quais as chances dessa segunda narrativa ser verdade? ” E eu te digo: essa segunda narrativa é tão possível e tão inventada quanto a primeira, então, não é melhor escolher uma que não te deixa explodindo de raiva e até dirigindo de um jeito mais arriscado?

Simples assim. Difícil de mudar a chave, porém, simples.

Tenho me inspirado muito numa autora sul-africana chamada Chene Swart. Ela fala de como a língua cria as nossas histórias e muitas vezes nos aprisiona nelas. Por isso, a gente precisa se manter atento não apenas às histórias que a gente conta sobre a gente, sobre os outros e sobre o mundo, mas também à linguagem que a gente escolhe pra contar essas histórias.

Ela pergunta: qual foi o mundo que nos entregaram quando nascemos?

Um mundo onde julgamos uns aos outros, onde damos conselhos o tempo todo porque acreditamos que sabemos da vida dos outros e fomos ensinados a “consertar” as pessoas. Na melhor das hipóteses, a gente faz uma “crítica positiva”. É assim que nos tornamos indignos, todos nós. Quando a gente julga alguém, quando a gente supõe alguma coisa sobre alguém, essa pessoa perde a autoria sobre ela mesma.

O que a gente precisa fazer é construir e honrar situações que são alternativas à essa grande história que nos governa. A gente precisa criar e contar essas histórias alternativas, parar um pouco, ouvir e conectá-las.

Contadores de histórias compartilham mais que histórias, eles compartilham a alegria da possibilidade de mudar o modo como as coisas são.

Vê a potência dessa conversa? Muito mais profunda do que aquela “historinha” de criança do começo desse post e, por isso mesmo, tão importante para crianças, adolescentes, adultos, velhos, todos. Especialmente, hoje, nesse Brasil, nesse mundo. Então, te convido a pensar profundamente sobre as histórias que você tem contado na sua cabeça sobre você e sobre o modo como as coisas estão.

Se as histórias que a gente conta todo dia dão forma à nossa realidade e ao nosso futuro quais histórias a gente precisa parar de contar e quais a gente precisa começar a contar? É sobre isso que quero conversar, aprender e espalhar cada vez mais. Por isso, fiquei tão feliz com esse espaço aqui na WeJam. A gente que é artista e criativo tem toda a possibilidade de liderar o caminho para a invenção dessas novas histórias. Vamos juntos?

•foto: Social Cut

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