Precisamos falar sobre legado

Nosso querido jornalista Ricardo Boechat se foi no início de fevereiro. Após sua morte, testemunhei homenagens vindas dos mais diferentes públicos, desde colegas de profissão a taxistas, ouvintes assíduos de seu programa de rádio. Ele tinha mesmo um jeito especial de transmitir as notícias e suas opiniões.

As diversas reportagens sobre o acidente em que Boechat morreu me trouxeram três informações a respeito do jornalista que ainda não sabia: o hábito de divulgar o número de celular ao vivo na rádio; sua opção por um carro de marca simples em contraste ao status social que ele tinha; e sua mania de desenhar, inclusive dando feedbacks aos colegas por meio de desenhos às vezes hilários, às vezes comoventes. Ele fazia arte para criticar ou elogiar os repórteres.

Na mesma época, vinha fazendo uma reflexão pessoal a respeito do sistema mercadológico em que estamos inseridos e a crueldade trazida pela ganância desmedida, capaz de destruir o ecossistema do qual dependemos para viver. Senti tanta revolta em ver a série de negligências que culminou nas tragédias de Brumadinho e dos meninos mortos na hospedagem “temporária” do Flamengo. Nosso país é feito de gambiarras, dá-se um jeito para tudo em nome do custo menor e do lucro maior.

Voltando à trajetória linda que Boechat teve durante sua vida e sua carreira, vem a pergunta: que legado você quer deixar para o mundo? Considere como “mundo” o entorno em que você vive, ou até onde seus atos são capazes de afetar – para o mal ou para o bem. Queira construir, com sua carreira, não só uma história de sucesso baseada em aumento de cargo, salário, ou ganho de fama e fortuna. Mas sim uma história na qual você pôde ajudar a semear boas ideias e sentimentos nas pessoas. Até mesmo provocá-las à indignação, à mudança, à luta por direitos e liberdades. No mínimo, uma trajetória na qual você possa dizer: eu soube respeitar meus colegas, soube valorizar as pessoas, soube olhar para o outro sem preconceitos.

Para um artista, o resultado do trabalho já é um legado por si só; um intangível que pode até ter um preço – afinal, o mercado precifica tudo e todos – mas seu valor só é estipulado por quem o acessa e por ele é impactado. A obra de um único artista tem o poder de mudar a vida de milhões de pessoas, em muitas gerações.

Dinheiro é bom e todo mundo gosta. Porém, para deixar um legado ao mundo, é preciso muito mais esforço do que obter diplomas, cargos e carrões na garagem: é preciso olhar para as pessoas no seu dia a dia como indivíduos únicos, especiais, e fazer da sua carreira um campo fértil para promoção da afirmação de Caetano Veloso: “gente é para brilhar, não para morrer de fome”.

•foto: Sasha Freemind

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